Escutar para transformar: reflexões de universidade sustentável

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Texto de autoria da Profa. Dra. Fabrina Moreira, docente do Mestrado Profissional em Educação (MPE) da UNITAU. No artigo, publicado originalmente no portal OVALE, a professora compartilha reflexões sobre sustentabilidade universitária a partir de sua experiência à frente da comissão organizadora do Profoco e de sua pesquisa de pós-doutorado, desenvolvida no Instituto de Psicologia da USP. Leia a seguir:

Profa. Dra. Fabrina Moreira (Créditos: Renata Moraes / ACOM UNITAU)

Às vezes, a pesquisa nos surpreende. Passamos anos formulando perguntas, organizando referências e construindo hipóteses até que, inesperadamente, a realidade responde antes mesmo da conclusão do estudo. Foi exatamente essa sensação que vivi ao presidir a comissão organizadora do Profoco deste ano. Enquanto acompanhava docentes, estudantes, técnicos administrativos e pesquisadores convidados refletindo sobre docência, inovação e compromisso social, tive a impressão de que minha pesquisa havia deixado as páginas do projeto para acontecer, viva, diante dos meus olhos.

Naquele momento, compreendi que uma universidade sustentável não nasce apenas de documentos institucionais. Ela começa quando a própria universidade decide escutar a si mesma. O que faz uma universidade ser, de fato, sustentável? Essa é a pergunta que orienta meu pós-doutorado, desenvolvido no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), intitulado Mapeando Vozes, Escutando Silêncios: uma Cartografia da Universidade Sustentável. A resposta não está apenas em planos institucionais, indicadores ou relatórios. Está, sobretudo, nas pessoas que constroem diariamente a instituição e nos diferentes sentidos que atribuem à própria sustentabilidade.

O Profoco tornou visível aquilo que a pesquisa procura compreender. Uma universidade não se transforma apenas por incorporar novos conceitos aos seus planos. Ela começa a mudar quando cria espaços de escuta capazes de reunir perspectivas distintas e construir, a partir delas, um horizonte comum.

Na abertura do evento, uma reflexão da Profa. Dra. Rosamaria Cox Moura-Leite Padgett, fundadora e coordenadora da Rede UniSustentável, sintetizou esse pensamento. Segundo ela, a Agenda 2030 é um caminho seguro, e a universidade não deve ser espelho, mas farol. O espelho apenas reproduz a realidade existente; o farol ilumina os caminhos que ainda precisam ser percorridos. Desde então, essa imagem me acompanha como uma síntese do que procuro construir na pesquisa e na docência.

Essa forma de compreender a universidade também dialoga com minha trajetória acadêmica. No doutorado em Filosofia da Ciência, investiguei a epistemologia de Pierre Bourdieu e sua crítica ao conhecimento científico. Aprendi que nenhuma instituição se explica apenas por indicadores ou discursos oficiais. Ela também é feita de relações, significados, disputas simbólicas e silêncios. Talvez por isso minha pesquisa tenha escolhido começar ouvindo antes de medir.

Percebi, então, que escutar a universidade exigia também criar instrumentos capazes de acompanhar essa trajetória de perto. Foi desse percurso que nasceu o OBSUS, o Observatório da Universidade Sustentável, hoje vinculado ao CEUS. Concebido inicialmente como apoio à pesquisa, tornou-se um espaço de integração entre conhecimento acadêmico e gestão universitária, reunindo projetos, indicadores, documentos e iniciativas de sustentabilidade da UNITAU. Ver esse trabalho apresentado durante o Profoco, ao lado de pesquisadores brasileiros e latino-americanos, foi perceber que uma investigação acadêmica pode ultrapassar os limites da produção científica e tornar-se parte da vida institucional.

Nenhuma universidade se torna sustentável apenas porque assim se declara. Ela se torna sustentável quando aprende a escutar a si mesma, reconhecendo que sua missão não é apenas transmitir conhecimento, mas produzir sentidos, formular perguntas e assumir responsabilidade pelo futuro que ajuda a construir.

Thomas More imaginou, em Utopia, um lugar que ainda não existe, mas que orienta nossa forma de pensar o mundo. Gosto de acreditar que a universidade sustentável também é esse horizonte: não um destino já alcançado, mas uma direção que nos convida, todos os dias, a construir um futuro melhor. Talvez ela nunca esteja pronta. Talvez seja justamente essa a sua maior virtude: continuar nos convocando a caminhar.

É para essa universidade que continuo dedicando minha pesquisa, minha docência e minha esperança.

Publicado no OVALE (Sampi) em: https://sampi.net.br/ovale/noticias/2996625/vale-do-paraiba/2026/08/escutar-para-transformar-reflexoes-de-universidade-sustentavel

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